CATARSE

O que nos move enquanto seres humanos é uma salutar mistura de racionalidade e sentimento.

Nem somente a fria razão, nem exagero de emoção, em um saudável equilíbrio.

Engolidos pelo andar acelerado da vida, os sentimentos não expressados vão se acumulando, inertes, e tornando a trajetória muito menos significativa, descolorida.

Por isso é importante que se realize uma catarse, uma liberação desses sentimentos.

É aí que entra a escrita.

Escrever não é somente um ato catártico, de liberação emocional.

É forma de eternizarmos a emoção que nos humaniza, gravando o carinho com tinta indelével não só no papel que o recebe, mas também nos corações dos interlocutores.

Expressar o que sentem: eis o segredo dos felizes.

2 – CINCO SÍLABAS

Era manhã de domingo.

Apesar de não tomar café, sou eu quem faz o café na minha casa. E bem cedinho ele já estava pronto, como um convite perfumado para acordar quem ainda estava dormindo.

Abri a janela da cozinha e o perfume da grama molhada pelo orvalho despertou-me ainda mais os sentidos.

Meu cachorrinho sentiu o cheiro do pão de queijo recém-saído do forno e começou a arranhar a porta, pedindo para entrar. Ele sempre pede qualquer coisa que estejamos comendo…

Logo chegou minha mãe, trazendo meu pai na cadeira de rodas para assentar-se à mesa. Os dois rindo, alegres como sempre.

Foi então que me ocorreu…

Depois de morar em tantos lugares, estudar tanto, trabalhar desde pequena (comecei com treze anos), depois de tanto procurar em vão…

Ela estava ali, na minha frente.

Aquilo que passei toda a vida buscando, sem saber exatamente que forma tinha. Qual cheiro, qual cor.

Estava ali, como personagens e cenários saltando de uma linda tela, ganhando vida.

De repente, tudo o que me faltava perdeu importância, porque o essencial estava diante de meus olhos.

Aquele momento tinha nome.

Um nome com cinco sílabas.

FE-LI-CI-DA-DE.

Eu não mais precisava buscar.

3 – CHEIRO INDEFINIDO

Em certas manhãs de sol, que têm um prelúdio de chuva à vista, vem um cheiro indefinido, um cheiro peculiar, familiar.

Ele me faz pensar se terminei de estudar os fichamentos de História. Se a amiga que quebrou o pé jogando vôlei está bem. Se devolvi todas as fitas para a locadora. Será que hoje vai tocar “As long as you love me” na rádio? Se os clipes novos já passaram na TV. Se na banca já chegou a revista com as letras das músicas novas. Se as tarefas estão todas prontas para eu poder passar o resto do dia conversando com a Di.

Foi então que eu entendi porque esse cheiro aquece tanto meu coração… é cheiro de nostalgia, alegria, gratidão.

É cheiro do velho Zênite.

4 – TRÁFEGO

Sentimentos e companhias assemelham-se ao tráfego: para alguns, o vai e vem é digno de uma grande metrópole; já na vida de outros, o movimento é menor que o de algumas cidadezinhas do interior…

Certas afinidades fazem com que se queira seguir por determinada via. Quando as incompatibilidades tornam-se insuperáveis, troca-se a rota – e retorna-se ao tráfego.

Estar em meio ao tráfego é desconfortável e incerto. Por vezes parecemos estar em uma hora do rush sem fim.

Na verdade, o que todos nós queremos é um local seguro para estacionar.

5 – A LOUÇA E O MUNDO

É maravilhoso que se queira mudar o mundo.

Transformar – para melhor – o planeta em que vivemos não é quimera; é possibilidade real para aqueles com garra e perseverança.

Acontece que muitos não compreendem que essa mudança ocorre de dentro para fora: é no próprio lar que ela começa.

De que adianta o jovem encher-se de ideais e não respeitar os pais e professores? Não cumprir os deveres escolares?

Com que credibilidade se pode expor à comunidade belos planos de progresso tendo deixado o quarto todo bagunçado?

Colaborar com aquilo que ganha visibilidade no mundo sem antes ter contribuído com a própria família é pura hipocrisia.

Não permita que as dificuldades do cotidiano destruam seus ideais de mudança; mantenha seus sonhos vivos e busque realizá-los, em qualquer etapa da vida.

Mas nunca se esqueça: não adianta querer mudar o mundo e não lavar a própria louça.

6 – PLANTIO

Já dizia Einstein que a vida é como andar de bicicleta: para manter seu equilíbrio, você deve continuar se movendo.

Isso é válido para todas as fases; para os altos e para os baixos.

Se o tempo não cura todas as dores, ao menos as ameniza ou transforma. Portanto, mesmo em meio a uma daquelas fases complicadas, não deixe de produzir, de criar, de plantar.

As horas – indiferentes aos seus sentimentos – passarão de qualquer forma, mas o que for plantado permanecerá.

Plante mesmo naqueles dias em que até sorrir dói; continue, mesmo entre lágrimas.

Não se permita parar.

Seguir plantando é seguir vivendo.

A colheita virá sem dúvidas. Novos dias de sol virão também.

7 – SILÊNCIO

Há períodos de nossas vidas marcados pelo silêncio. Uma calmaria incômoda, uma resignação artificial. Um silêncio que ecoa com todas as forças, escancarando a dor das perdas, dos prejuízos, das ausências – algumas temporárias, outras permanentes -, da falta de certas coisas intangíveis – e tangíveis também.

Nesses períodos parece não haver progresso, não haver crescimento. Mas, na verdade, a forma como encaramos as fases de silêncio é que mostra o que verdadeiramente somos e sobretudo, o que temos capacidade de nos tornar.

A força com que resistimos à eloquência do silêncio denuncia qual a matéria prima de nossas fibras.

A semente permanece no escuro até estar pronta para germinar.

Ao invés de nos revoltarmos contra as fases de silêncio, lembremo-nos de que Mozart nos ensinou que a música não está nas notas, mas no silêncio entre elas.

8 – MARÉ

Nossos dias são compostos por altos e baixos, assemelhando-se ao movimento das ondas.

Se em uma hora os acontecimentos nos afagam com delicadas carícias, em outra nos fragmentam o coração.

O lado positivo da maré da vida é sabermos que, se o dia hoje foi de sofrimento e lágrimas, podemos aguardar confiantes o riso de amanhã.

9 – HORIZONTE

Olha em frente.

Um brilhante futuro te aguarda.

Como maçãs de ouro, logo adiante pendem os frutos de teu trabalho árduo.

Colhe o que é teu por direito.

Ocupa o teu lugar de dignidade e felicita-te por tua trajetória de honra, com a consciência tranquila de ver cumpridos teus deveres perante a sociedade.

Reconhece o próprio valor, nem maior nem menor que o de ninguém.

Olha de novo, com justo orgulho do caminho percorrido honestamente.

E sorri.

A felicidade imperecível está bem ali, na próxima volta do caminho.

10 – INEVITÁVEL

Se cumpres o teu dever e guardas tua consciência tranquila, não importa que te ofendam, invejem, caluniem, ou tentem incomodar ou agredir.

Não importa que tentem colocar o mundo todo contra ti com mentiras e artimanhas.

Enquanto o mal se debate na própria torpeza, segue o teu caminho de subida constante.

A vitória do Bem é inevitável.

SOBRE A AUTORA

Euzébia Noleto é advogada especialista em Direito Internacional e Direito Público. Especializanda em Direito Empresarial (PUC Minas).

Autora da obra “A transnacionalidade do Rio Paraná sob a ótica do Direito Internacional”. Membro da American Society of International Law, da International Law Association e do IBRADEMP (Instituto Brasileiro de Direito Empresarial).

Formação complementar em Teoria Contratual (Programa Harvard X), Direitos Humanos em Âmbito Internacional, Inglês Jurídico (FGV) e Direitos Humanos dos Refugiados. Inscrita na OAB nos estados do Rio Grande do Norte (877A) e de Goiás (28.064).

Publica artigos jurídicos no site www.euzebia.com.

Expressa-se em verso & prosa em seu blog pessoal (www.euzebia.net), onde compartilha textos, poemas e vídeos.

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Dedicatória

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